O Rastro d'Ela


Eu também tenho meus casos de onça.
Acho que a vez em que estivemos mais próximas foi naquela noite em que fiquei sozinha na estrada de chão que liga a rodovia a Corumbá. Saimos, eu e alguns colegas, para trabalhar. Eles ficariam em um capão além do ponto onde me largaram. E eu percorreria a estrada com uma escada de pau, velha, remendada e pesada, parando sob cada embaúba no caminho para medir a taxa de patrulhamento por formigas. Eu reclamei cedo demais dos carros que passaram por mim perguntando o que eu fazia. "Contando formigas', eu respondia, e não era mentira. Sentiria falta dos viajantes amistosos mais tarde, quando a noite se fechou sem lua sobre a estrada, e cada carro era ameaçador, a a escuridão me tragou como uma formiguinha. Alguém me contava? Achava que sim, me sentindo sob os olhares de mil bestas do mato, enquanto palmilhava humilde a estrada de terra com a agora leve escadinha no ombro.
Ficaram de me busca lá pelas seis. Mas se deu que às cinco o sol baixou, e os aranquãs silenciaram, e os passarinhos foram para os ninhos, e outros bichos vieram tomar seus lugares. Era o urutau que cantava agora, e os sapos despertavam nos brejos. A melancolia caiu sobre o mundo inteiro, e até uma vaca mugindo ao longe me entristecia. Me arrepiava. Os odores eram outros que os do dia. E comecei a sentir um cheiro de carne de açougue. Não senti mais vontade de descer da escada. Mas meus pensamentos eram tão sinistros ali de cima, que resolvi aguardar meus colegas rumando para a Base. Pelo menos assim a oficina do capeta ficava menos ativa. Além disso, sairia daquele cheiro que podia ser de onça. Não era glamourosa a possibilidade do meu encontro com a pintada, ao contrário do que eu sempre pensei no aconchego do lar. Balizei com a hipótese de que deveria ser algum carnívoro menor, "um lobinho, quem sabe". E o teste de hipótese já estava montado: "eu caminho para a Base, se o cheiro passar, o 'lobinho' ficou para trás". O cheiro não passava. Vinha em lufadas fortes a cada passo, e teci uma segunda hipótese, não testável, mas por isso mesmo tranquilizante: "Uma planta polinizada por moscas, com cheiro de carne velha e antese noturna cresce ao longo de toda essa estrada". Pronto. Mas não custava seguir pelo meio, longe das beiras tenebrosas. Sei que torei uns dois quilômetros na escuridão, a escada no ombro, negando algumas caronas tão apavorantes quanto a onça àquela hora. Segui até meus colegas me apanharem e eu chegar dura, tensa, mau-humorada, mas em segurança na Base.

No dia seguinte, mas bem cedo, lá estava eu contando formigas na estrada. Foi aí que encontrei as pegadas de pintada na areia, formando longo rastro. O qual eu segui, tomando medidas, fotografando, até reparar que acompanhavam longa trilha de pegadas humanas. Na estrada em que eu fui provavelmente a única pessoa a passar a pé no dia anterior, resolvi medir o tamanho das pegadas, colocando meu pé dentro. E como cabia perfeitamente, contornos e relevo do solado, medi o passo. Tudo igual. Era eu ali, ontem, no mesmo lugar em que havia caminhado.

Porque era tão escura aquela noite eu não sei, nem como a escada havia se tornado tão leve. Nem se o cheiro de carne de açougue era da onça, e se ela me seguiu ou se passou no meu rastro mais tarde. Não sei. Ninguém vai saber. Ainda bem que eu eu estava com minha máquina fotográfica, para dar testemunho de que não minto.

Comentários

Anônimo disse…
Esse é muito legal... Eu participei indiretamente! Ouvi vc contar e agora tenho a oportunidade de ler... Enquanto comento, olho para a miniatura da famosa que eu trouxe de lá. Me fez lembrar do meu causo. Eu também tenho um pra contar!!!
Bjus pra ti.
Eita Andri, só aquele curso de campo já dava um blog e tanto...
Beijo!
Anônimo disse…
Alá! Adoro essa pintada-mão-fofa!

mas "medir a taxa de patrulhamento por formigas"??? isso tá pior que as aulas de "dança das cores II" que eu fiz.. kkkk Pelo menos o maior risco que eu corri foi de encontrar um magenta meio apagadinho...

BJS!
Rô,
A metodologia para 'patrulhamento por formigas' era ainda melhor que as suas em "Dança das Cores II". Colocava uma moldura de 5x2cm a uns 3cm do tronco e dava três soquinhos na árvore. Depois, contava o número de formigas que cruzava a área dentro da moldura por um minuto. Taxa de patrulhamento por formigas = N/10cm^2 x minuto ^-1
(^ = 'elevado')

Fui!
Anônimo disse…
Saulvas 02x01 Lava-pés

Mas e a formiga que cruzar a moldura primeiro? Recebe um prêmio? Vocês têm um frofeuzinho ou um mini pódium pra cerimônia? como é? ...quem tá ganhando?

Realmente. A vida no ruderal parece só diversão... kkkk
Não Rô, não tem saulvas nem lava-pés, nem das doceiras, nem as catingudas. A formiga que vive nas Cecrópia é do gênero Azteca, um mutualismo super especializado, e zaz, e zaz!
Anônimo disse…
Coração de mãe fica apertadinho com estas histórias! Mas não tem nada não... é uma experiência única e fantástica, precisa ser vivida! Me emociona muito esta competência do "meu alemãozinho" para escrever.
Bjs
Judite

Postagens mais visitadas deste blog

De trevas e luz: os brejos

Anfíbios e répteis

O dom para fazer contato