Comitiva Esperança?


O principal trabalho que desenvolvo no Pantanal - o que justifica minha vinda prá cá e que, se tudo correr bem, me dará um título de mestre em Ecologia, e que por isso justifica meus frios na barriga e noites sem dormir (e as alegrias também, muitas) - é sobre uma planta chamada Echinodorus paniculatus, o chapéu-de-couro-folha-fina. É uma aquática chamada de emergente por não ser submersa nem flutuante, mas enraizada no fundo de corpos dágua, ficando parte submersa e parte emersa nas cheias.

Na primeira expedição, procurei populações vivendo nas condições adequadas para que fossem respondidas as pergunta do trabalho. E vou falar: mesmo sendo espécie comum, não foi fácil encontrar populações salvas da passagem de carros, mas acessíveis ao nosso carro, fora do alcance de pescadores e de ladrões das varinhas marcadoras das plantas, em densidades tais que eu não passaria dias medindo milhares de plantas em uma única população, nem que as dezeninhas desaparecessem de um mês para o outro, e em condições de inundação tais que as populações não amanhecessem torradas, nem que eu precisasse de escafandro para amostrá-las.

Quanto mais populações eu encontrasse, melhor. Queria 20, consegui 8. Um número razoável, considerando-se a dificuldade de aumentá-lo, devido à duração da expedição, e pelas perdas que eu sofreria mais tarde.

E elas se deram na segunda expedição. O motorista se chamava Cateto e percorríamos novamente a EstradaParque em busca das populações que eu havia marcado um mês antes, cerca de 500 plantas, com as tais varinhas. Antes que chegássemos ao primeiro local, assistimos a uma autêntica cena pantaneira: 2 baguais, trazendo quatro mulas com as bruacas, arrancharam sob uma árvore à beira da estrada e já preparavam o carreteio para a comitiva que se aproximava, há poucos quilômetros dali. "Vamo quebrar o torto?", eles convidaram, e o Cateto acenou: "Brigado, bom apetite". Meu coração estava repleto, agradecido pela cena genuína.

Segui medindo as plantas, as marcadas, até passarmos pela comitiva. Umas 50 cabeças, os 6 homens, seus bigodes diferentes, as mantas, os chapéus, os aboios, tudo bonito de se ver. E logo chegamos na oitava população. Pulei da Toyota agradecida pelo bom dia de trabalho, pelo dia verdadeiramente pantaneiro, e surpresa. Ninguém havia roubado as varinhas, nem as mudado de lugar, nem os carros as tinham atropelado... Mas o gado havia pisoteado tudo. Ah Comitiva Esperança, foi você? Daí foi voltar, parando de população em população para recolher as 500 varinhas arrancadas, retorcidas, emaranhadas, e sentir o cheiro fresco da terra recém remexida pelos cascos da boiada. Uma música não saiu da minha cabeça durante todo o tempo em que eu recolhi, murcha, as varinhas: "As rubras ferraduras punham brasas pelo ar/Os touros como fogo galopavam sem cessar/E atrás iam vaqueiros como loucos a gritar". Só estas frases, repetidas abestalhadamente, sem ritmo, sem que eu soubesse o final da música, sem meu consentimento para tocar, trilha sonora da imagem de cascos remexendo o solo, que também não saia da minha cabeça, com o tropel de búfalos galopando na planície.

Voltando para a Base, passamos pelos peões, que descansavam. O torto já havia sido quebrado (e as varinhas entortadas, não pude deixar de pensar). Ainda assim, no fim do dia, meu coração se alegrava de ter não só assitido, mas participado de cena tão genuína. E pensei feliz que minhas dificuldades no campo não derivavam de tratores, caminhões, metais pesados, pessoas mal intencionadas, mas de comitivas, onças, porcos monteiros.

Comentários

Anônimo disse…
"As rubras ferraduras punham brasas pelo ar/Os touros como fogo galopavam sem sessar/E atrás iam vaqueiros como loucos a gritar"

ar, sessar, gritar. saquei a rima rica. hahaha Mas num tô lembrando dessa música...é João Mineiro? Cleyton e Creydir? é hit novo no Pantanal? Meu irmão deve saber...

bj!

Ah, Comitiva Esperança! ...danada!
Anônimo disse…
Só tu mesmo...
De onde foi que tu desencavou esse hit, hein?!
Superhiperultra maneiro!
Beijoquinhas,
Anônimo disse…
Muito muito bom Aninha. Minha ecóloga escritora preferida. hehehe
bjos
Anônimo disse…
Caramba Aninha!
Senti o que vc sentiu (eu acho) quando tava lendo a estória!
Simplesmente demais!!!
você tem as manhas!!!!

Saudades montras de tu!!

Beijocas!!
O hit é cantado pela minha mãe, mas ela também não sabe de quem é. Desde criança achava sinistra esta música, mesmo sem prever o quão perverso poderia se tornal o tropel das bestas (risos).
Anônimo disse…
Pessoal,
É um hit americano, anos 60 se não me engano, e cuja versão em português foi gravada por Carlos Gonzaga, em vinil, claro. Milton Nascimento já cantou também, não sei se gravou ou se canta como eu para matar saudades daqueles tempos loucos.
Judite

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