Quando um pingo é letra


“Um mulato e um pequeno brasileiro me acompanharam. Esse último era quase
uma criança (...). Nunca vi nada igual ao seu poder de percepção. Muitos
dos animais mais raros nas trilhas mais obscuras foram pegos por ele. Eu não
ficaria tão bem servido se um besouro se tivesse transformado em traidor e se
tornado meu ajudante, do que em ter encontrado um colaborador tão capaz
(...).”
Charles Darwin, em seu diário de viagem, sobre a ajuda que recebeu na
coleta de besouros durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, em 1832.

Quem, se nos fosse dada a chance, não gostaria de conversar com as plantas e os bichos? Que perguntas você faria a uma árvore, se falassem a mesma língua e pudessem conversar? Pense em quantos eventos esses seres aparentemente inertes e silenciosos, que são as árvores, presenciam ao longo da vida. Quantos insetos, aves, ninhos, liquens, musgos, trepadeiras e epífitas abrigam em seu corpo? Imagine o depoimento brilhante que nos dariam sobre as horas solitárias, noites, tempestades, momentos em que qualquer pessoa de juízo busca o abrigo de casa. Ou sobre épocas passadas, das quais não restam outras testemunhas vivas. Árvores de dezenas, centenas de anos. Que fabuloso testemunho prestariam.

Como bióloga, penso no atalho que tal conversa representaria para o esforço científico de decifrar a natureza, nas horas de trabalho poupadas, na economia financeira e na eficiência do método. Seria o fim das parcelas, transectos, anilhas e rádio-colares. Infelizmente, não falamos a mesma língua que outras criaturas, e permanecemos incomunicáveis por palavras. Os cientistas driblam esse silêncio utilizando um jeito indireto de ouvir os seres vivos. Fazem perguntas e buscam indícios que configurem respostas. Por exemplo, se querem conhecer as estratégias de uma planta terrestre para tolerar a cheia do Pantanal, comparam indivíduos em ambientes secos e cheios, investigam se o tipo, número e tamanho de suas estruturas se modifica. E elas respondem sem palavras, com o próprio corpo. Sua resposta não tem o ritmo de uma prosa, mas o das estações, dos anos, o ritmo do seu ciclo de vida.

Têm pantaneiros que se entendem com as plantas e os bichos. Não que eles conversem, no sentido literal da palavra. Esses conhecedores intuitivos do Pantanal elaboram seu conhecimento a partir do convívio diário com a natureza. Lêem sinais que passam desapercebidos para a maioria das pessoas, farejam, rastreiam bichos e reconstroem seus movimentos passados. Rastros na terra, pêlos, marcas nas árvores, tocas e restos de refeições indicam quais animais estiveram em determinado lugar, seu sexo, tamanho, se andavam solitários ou em grupo, e muito mais. Certa vez, Seu Geraldo indicou uma pegada. Vi o que parecia ser um simples buraco no solo se transformar, através do conhecimento do Seu Geraldo, numa pegada de fêmea de cervo que passara ali desacompanhada há um ou dois dias. Outra vez, Seu Geraldo me contou que limpava peixes sob as palafitas da Base, quando notou que uma onça com 2 filhotes o miravam, há 3 metros de distância. Por sorte – ele disse – as pintadas deixaram pegadas no barro molhado, através dos quais ele provou a veracidade da história, a qual eu pude comprovar. Como diz o ditado, ‘para quem sabe ler, pingo é letra’.

Os cientistas fazem o mesmo. Através de indícios como os que foram descritos para as plantas, ou rastros, realizam inventários florísticos e faunísticos, reconhecem a área de vida dos animais, o tamanho de populações e as respostas dos organismos às mudanças climáticas e à influência do homem. A partir dessas informações elaboram planos para a conservação da vida silvestre e para o planejamento de áreas de proteção ambiental.

Esse método de percepção dos sinais une nativos e cientistas, embora muitas vezes interpretem os fatos de formas diversas. Cientistas recebem grande contribuição dos nativos, e vice versa. Para quem busca um capão, brejo ou campo com determinadas condições, uma determinada espécie ou informações sobre seca e cheia, o saber popular é como uma luz para os que buscam a agulha no palheiro. Não é à toa que vi pela primeira vez o chapéu-de-couro, planta que se tornou meu objeto de estudo, através do motorista, que, ao ser informado do seu nome comum, a identificou, sabia onde encontrá-la, e a coletou. Depois, foi ele e Seu Geraldo quem me mostraram os brejos onde a planta vive, e depois ensinaram que a folha misturada ao tereré é boa para os rins e o baço. Por outro lado, tive o prazer de contar-lhes os resultados dos meus estudos, e os dos meus colegas.

No século XIX, diversos naturalistas percorreram o Brasil em busca de espécimes animais e vegetais, recebendo a ajuda de escravos negros, índios, caçadores, fazendeiros, padres, membros da elite e autoridades. Algumas vezes os exploradores reconheceram a ajuda dos nativos, que possibilitaram o trânsito por florestas inóspitas, forneceram informações metereológicas e sobre hábitos e uso de plantas e animais, além da companhia pessoal. Muitas vezes esse relacionamento não ocorreu na forma de parcerias, mas às custas da espoliação dos nativos e do seu julgamento como ignorantes e primitivos, mesmo fornecendo informações que ninguém mais possuía.

Que grande avanço científico, humanístico, ético e democrático representaria o reforço dessa parceria. Os cientistas reconhecendo e utilizando os saberes práticos dos nativos, e estes usufruindo sua contribuição, seja através de produtos, tecnologias ou da divulgação científica.


Esse texto que escrevi foi publicado numa revista sobre a Base de Estudos do Pantanal, desenvolvida pela Maria Elisa Guimarães Corrêa e pela Priscilla Demleitner, alunas da UFMS, como trabalho de conclusão do curso de jornalismo .

Comentários

Jean Pierre disse…
Lá vamos nós, outra vez.

É. Integrar é, ou deveria ser, a palavra-chave dos tempos pós-modernos. O problema está na estranha necessidade (por instinto, intuição ou egoísmo tosco, mesmo) de nós, seres ditos humanos, mantermos os respectivos nichos sociais a que julgamos pertencer. Daí o divórcio entre os naturalistas da academia e os telúricos, por assim dizer. Um pingo é letra: i é chuva.
Beijos
JP
Carol foca disse…
Anita!!!
como sempre encantando com seus escritos! DEfinitivamentchiii vc tem o dom da escrita e da estória!!!
Você consegue colocar em palavras tudo aquilo que nós, cientistas, ambientalistas, estudandes sentimos e fazemos ao estudar o meio e tudo aquilo a nossa volta!
Simplesmente demais!!!
Adorei!

Miil beijocas saudosas!!
Paulo Robson disse…
Ana,

Irei à Base do Pantanal nesta segunda 07/5, vou dar um abraço no Seu Geraldo por voce...
Maria Elisa disse…
Dá até vontade de voltar no tempo...e deixar o Russo me contar as tais histórias de terror da Base.....
Um dia a gente volta....
Ana disse…
"Um pingo é letra: i é chuva". Iiiiiiiiii... Lindo JP!

No Pantanal tem foca? Tem sim senhor! Carola, acho que você é minha leitora mais assídua. Valeu demais, Foca Branca (bronzeada de Pantanal)!

Professor, manda um abraço para o Seu Geraldo sim! Estou tentando ligar para a BEP para conversar com o pessoal, mas o tel. deles tá estragado.

Maria Elisa, você disse tudo! O que eu não daria para ouvir aquelas histórias agora... Mas lá não dava mesmo, definitivamente!

Beijos a todos,
Aninha

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