Despedida III


Os meninos nos chamaram, eu e a Lara: "Venham ver um bugio tomando banho". Largamos tudo, trenas, pranchetas, e fomos ver a festinha do macaco que fazia exatamente o que gostaríamos de fazer naquele fim de tarde quente. Na beira de um corpo d’água lamacento e quase seco estava o bugio. Nos aproximamos devagar para não espantá-lo. Estava bem esparramado, o bugio, e fechava os olhos como aqueles macacos japoneses se banhando nas águas termais na paisagem branca de gelo. Nos aproximamos um pouco mais. Ele abria os olhos devagar, nos mirando sem expressão, e tornava a fechá-los. Aquele macaco não se divertia. Não tinha expressão de alegre nem triste, mas estava cansado. Aquele bicho não estava bem.
Rodeamos ele e vimos os machucados nos braços. Estava morrendo. O Sam saiu de perto e depois disse que não respeitamos o bicho. Mas não queríamos desrespeitá-lo. Sabíamos que estava estressado, por isso não nos aproximamos muito, nem mexemos com ele. Só observamos. E, Deus me perdoe, mas é tão raro a gente poder olhar assim sem pudor para alguém que morre, que chega a despertar a curiosidade. Era bonito de ver o macaco nem alegre nem triste, nem bravo nem com medo, esperando quieto sua hora chegar. Quer dizer, assim parecia para a gente. Parecia uma lição bonita pra gente aprender.
Depois, fomos trabalhar, porque já escurecia e tínhamos que terminar a medição. Finalizado o trabalho, fui ver de novo o bugio. No poço, um tuiuiú vasculhava a água em busca das traíras, e um gavião belo pousara no galho ali perto, um carcará também. Daí, vimos a mancha escura no mato, o macaco. Subira o barranquinho e estava deitado no capim, a cabeça mais em pé, não sei se apoiada em qualquer coisa. De novo aquele olhar quieto, as piscadas longas. Veio o carcará e pousou bem na árvore, logo acima do bugio. Ele espiava o macaquinho já há algum tempo. E esse um nem se assustou nem fez que não via. Mas, daí a pouco, se levantou, saiu manquitolando, e foi procurar um lugar mais tranqüilo para morrer.
Depois contamos o caso para os outros, porque ficamos comovidos, e o Cícero completou que esse macaco estava há dias rondando a Base. Que havia tomado uma coça dos outros bugios, que o expulsaram do grupo. Queríamos ajudá-lo, arrumar um meio de capturá-lo para dar os remédios e comida, mas o professor da veterinária explicou que agora ele era comida de onça. E que nessas coisas a gente não deve se meter. Ficou assim.
Foi estranho ter visto um macaco assim na minha última vez no Pantanal, porque tem uma história longa que eu escrevo na minha cabeça, e é diferente dessas que eu conto aqui, porque sempre continua do ponto que parou, e tem um personagem que é um bugio que foi abandonado pelo grupo. Ver um bugio assim me fez achar que preparavam um desfecho para minha história imaginária. E, como disse meu irmão, "...sonhar com morte pode significar o fim de uma fase da vida ou de alguma coisa que não é mais útil para você, pode significar uma cura ou um renascimento que está a ponto de ocorrer em sua vida, ou pode significar simplesmente saúde". E sendo minha última vez no Pantanal, fiquei pensando se a natureza preparou uma despedida para mim. Mas, eita! A natureza que me deu medo e que não cuidava de mim, que mandava chuva ou seca para mim tanto quanto para um pacu, um cervo ou um chapéu-de-couro, agora me preparava uma despedida? Fizemos as pazes?

Comentários

Anônimo disse…
Lindas despedidas, Nani!

A última em especial, fiquei diferente depois que li, mistura de vários sentimentos. Adorei.

Beijos e saudades.

Mary.
Unknown disse…
Tenho certeza que a natureza te proporcionou uma linda despedida! Tanta graça, leveza, amor pelo trabalho e respeito por tal, não poderia ter sido diferente!
Já estou morrendo de saudades de você mineirinha querida...nóóó!!!
Beijos
Li
Unknown disse…
Acho que sim Aninha!!
Um despedida cheia de surpresas e desfechos, finalmente as pazes...
E adorei essa última estória!!
Muito, muito boa!!!

Mil beijocas saudosas!!
Anônimo disse…
Aninha, fui no seu orkut e vim direto pra ca. Muito bom este seu blog. Ri demais da parte que fala "ques" mangas boas. Ques eh otimo. Detalhes que so vc sabe observar. rsrsr. Agora, quem se despede tres vezes eh porque nao esta querendo vir embora, ne...
Ou entao ja esta sabendo que vai sentir muita saudade dai.
abracao.
Anônimo disse…
Aninha... linda essa história do bugio... Pode ter certeza que não foi uma despedida e sim um volte sempre.
Agora você terá histórias de outros lugares pra contar, mas acho que essas do Pantanal foram as mais reais que eu já vi. Eu me sinto lá cada vez que eu leio.
Vamos sentir muito sua falta por aqui. Continue contando histórias que emocionam...
Boa Sorte nessa nova etapa.
beijos
Anônimo disse…
Como diz a Pri...
Sim, eu me sinto exatemente sentadinho à beira do Miranda toda vez que leio suas histórias... e choro no final de muitas delas !!! Ô minêra que me emociona !!!
Te adoro parcêra...
Gaya manda lembranças felinas pra ti...
Bjo
Unknown disse…
Aninha,
nao tenho nem palavras pra te escrever após ter lido a ultima despedida,achei muito interessante o que teu irmão disse sobre sonhar com a morte.

Beijos,vai fazeres muita falta aqui Guilli

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