O dom para fazer contato


Aquele homem falava com os sapos. Com o pôr do sol, quando as pessoas voltam para casa, é que ele saia para campear. Ia sozinho para os matos, onde se esconde toda a bicharada bruta, mas as pessoas só conhecem a quiçaça dos espinheiros. Lá se escuta a algazarra dos anônimos. Na cabelama inútil dos sarceros, dos seres esquecidos, ele conversava com os sapos. Primeiro escutava. Depois, com voz de sapo, ele mesmo falava, fazendo distinção entre cada pessoa anura. Sabia dar os nomes para machos ou fêmeas. Sabia chamá-los e também encontrá-los. Achava as toquinhas deles, as de espuma e as cavadas na terra, e as na beira d'água. Lá, ele ouvia muitas vozes.

O mundo dele tinha som ambiente, 'om'. Onde as pessoas comuns sentiriam a profunda solidão, ele se achava na grande cidade dos sapos: os muitos transeuntes, as festas, as ruas deles. Ele não estava só entre anuros, porque tinha o dom. Ele conseguiu o milagroso: descobrir o mundo exposto para a gente, que começa com o cair da noite, mas que quase nenhum de nós ainda não descobriu. O mundo dos seres que não se escondem, porque não precisam. Nós é que os escondemos dos nossos sentidos.

Com isso eu penso: que outros mundos estarão escancarados, os quais não conhecemos por artimanha das nossas cabeças? Devem haver cidades fervilhantes de seres desconhecidos, nem nunca imaginados. Está tudo na nossa frente exposto, sem fazer caso de se esconder ou pudor de serem vistos, mas nunca os vemos, por azar.

Comentários

Anônimo disse…
O efeito de seletividade sonora (aquilo que escolhemos não ouvir) é conhecido como "muska" - é a música cotidiana que chega aos nossos ouvidos mas preferimos ignorar. E então, tem uns caras muito bons, com uma sensibilidade espiritual que se tornam "compositores", e a função deles é "des-selecionar" selecionando as maravilhas-evidentes (caras especiais como Messiaen, Ligeti, Stockhausen e tantos outros). Você me lembra esses caras, Ana. É uma "compositora" que usa de outros materiais... que bom!
bjs
dimi
Carol foca disse…
Anita!!!
Será que é azar não escutarmos e/ou vermos tais seres fantásticos expostos nessa imensidão?! Acho que simplesmente não "queremos" perceber tais sons ou tais imagens! A vida corrida nos impede de ter essa percepção... Ou essa mesma vida faz com que esoclhamos outros tipos de sons...
Enfim!

Saudades mil!!!!
Muitas beijocas!!
Sérgio Fantini disse…
que beleza de texto, carol. parabéns.
Fernando disse…
Aninha, como herpetólogo devo lhe saudar !!!
Lindas palavras...
Tu é simplesmente demais minêra !!!
E meus olhos semprem enchem dágua qdo leio palavras tão relacionadas com minha vida de sapólogo...
Um beijo parcêra !!!
ro disse…
Lindo Nanie!
Paulo Robson disse…
Ana Carolina,
Como sempre, textos excelentes! Conheço dois "sapólogos" com este dom raro de entender e quase falar com os bichos de vida dupla: Masao e Beda.

Parabéns!

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